
Você já teve que ir a um enterro? De um parente, amigo, vizinho. Qualquer um. Se não, um dia irá. É algo da nossa cultura. Não cremamos. Não doamos nossos corpos para pesquisa. Enterramos.
Mas não quero falar de problemas de saúde pública, ou formas culturais de despedidas de entes queridos. Na verdade, só do enterro em si. E do clima pesado que fica nele.
É muito ruim enterrar alguém. Principalmente quando essa pessoa significou algo em nossas vidas.
É muito chato ter que consolar alguém por uma perda. Pior ainda se tentam nos consolar - e normalmente, em 90% das vezes, dizem as palavras erradas...
É algo que acontece, sim, mas é duro quando acontece.
Agora, imagine no meio disso tudo, ter que colher depoimentos, saber informações, buscar dados e maneiras de contar uma história.
A história de alguém que se foi. Cujo corpo está ali, na frente de todo mundo.
Muitos não toleram quando as câmeras de TV e máquinas fotográficas chegam nos velórios. Dizem que os jornalistas são abutres. Boa parte da má fama da profissão vem daí.
Afinal, somos "filhos da pauta". Ela diz o que fazer. E ai da gente se não o fizermos.
Comecei essa semana de julho com um enterro de uma garota de 16 anos. Bem numa segunda-feira. A jovem foi morta com um tiro dentro de casa.
No domingo mesmo, fui tentar depoimentos com a família, que se calou sobre o crime.
Quando chegamos no cemitério, na segunda, minha primeira ideia era ir no pai. Mas ele estava destruído pela dor. Mal conseguia se manter em pé.
A mesma consternação atingia primas, tios, outros parentes. A mãe, apesar da força, era só lágrimas.
Colegas de trabalho, na Caixa Econômica, também estavam tristes e choravam, mas pareciam mais firmes. Comecei com eles.
Mas ainda assim era difícil. Por que mandam a gente nessas ocasiões? Que tipo de notícias vamos extrair? Alguma confissão? Alguma declaração?
Não. Só querem as lágrimas das pessoas.
E por isso nos chamam de abutres...
No momento do velório, depois da bênção do padre, uma prima e a melhor amiga pareciam mais calmas. Depois de cairem em prantos, consegui chegar nelas. Com calma, voz baixa, e de certa forma ajudado pelo colega Antônio Carlos, cinegrafista da hora.
Tinhamos os depoimentos. E foi em um momento bom. Porque na hora do enterro, a melhor amiga desmaiou, e a prima mal se aguentava em pé.
Esperamos o fim. Gravamos a passagem. Só faltava o texto.
Sairia na redação. Porque depois de um enterro, faltam forças.
Ainda que você sequer conheça os envolvidos. O clima do lugar te consome.
Muitas histórias são complicadas ou difíceis de contar. Mas nenhuma é pior que a de um enterro. Porque só há as lágrimas das pessoas.
E por isso nos chamam de abutres.
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